A Voz, Jesus e a Origem do Ensinamento
Uma das perguntas que naturalmente surgem quando começamos a estudar Um Curso em Milagres — UCEM é: Quem está falando neste livro?
A pergunta é importante porque o Texto frequentemente utiliza a primeira pessoa.
Em determinadas passagens encontramos expressões como:
- “eu”;
- “meus irmãos”;
- “meu Pai”;
- “eu estou a cargo”;
- “eu faço a ponte”.
Além disso, Jesus ocupa um lugar muito particular dentro do sistema espiritual apresentado pela obra.
Para compreender esse aspecto de UCEM com clareza, porém, precisamos separar três coisas:
- o relato de Helen Schucman sobre como recebeu o material;
- aquilo que a própria voz do Texto afirma;
- e a interpretação espiritual que cada leitor fará dessa experiência.
Essa distinção permite estudar o Curso profundamente sem transformar fé em obrigação.
A experiência descrita por Helen Schucman
Como vimos no post anterior, Helen Schucman não se apresentava originalmente como uma buscadora espiritual.
No prefácio de UCEM, ela se descreve como psicóloga, educadora e ateísta em suas crenças naquele período.
Depois da decisão compartilhada com William Thetford de procurar “um outro jeito” para os conflitos que vivenciavam, Helen começou a experimentar sonhos simbólicos e imagens incomuns.
Então aconteceu aquilo que ela descreveu como sua apresentação à Voz.
Helen escreveu: “Esse é um curso em milagres.”
Segundo seu próprio relato, a Voz não possuía som.
Ela a percebia como uma espécie de ditado interior rápido, que anotava em um caderno de taquigrafia. O processo podia ser interrompido e posteriormente retomado, e Helen afirmou explicitamente que não considerava aquilo escrita automática.
Essa distinção é importante.
Quando falamos que UCEM teria sido “ditado”, estamos relatando como Helen descreveu sua própria experiência.
A Voz era Jesus?
Dentro da tradição de estudo de Um Curso em Milagres, a voz do ensinamento é associada a Jesus.
E o próprio conteúdo do Texto fornece fortes elementos para essa leitura, porque o narrador fala em primeira pessoa a respeito de Jesus, de sua relação com Deus, de seus irmãos e de sua função na Expiação.
Em uma passagem particularmente significativa, a voz afirma desempenhar uma função de ponte e utiliza para si a expressão: “teu irmão mais velho”.
Em seguida, o Texto declara em primeira pessoa: “Eu estou a cargo do processo da Expiação…”
Portanto, dentro da narrativa e da linguagem internas do Curso, a voz que ensina assume uma identidade associada a Jesus.
Isso não significa que um leitor seja obrigado a aceitar uma determinada explicação sobrenatural sobre como o fenômeno ocorreu.
É possível distinguir: o que Helen relatou; o que o Texto diz; e aquilo em que cada pessoa acredita.
Jesus em UCEM
O Jesus apresentado em Um Curso em Milagres possui características que merecem atenção.
Ele não aparece simplesmente como alguém distante da humanidade.
A linguagem do Curso enfatiza profundamente a irmandade.
Jesus aparece como aquele que já reconheceu plenamente aquilo que seus irmãos ainda estão aprendendo a reconhecer.
Isso explica a imagem do irmão mais velho.
Essa imagem transmite proximidade.
Não: “Eu sou espiritual e vocês não são.”
Mas algo mais próximo de: “Eu reconheci plenamente aquilo que também está disponível para vocês reconhecerem.”
Jesus torna-se, assim, um modelo de uma mente que já não escolhe o sistema de pensamento do medo.
Jesus não é apresentado para aumentar nossa sensação de inferioridade
Esse ponto é essencial.
Uma espiritualidade baseada no ego poderia transformar Jesus em mais uma oportunidade para a comparação:
“Ele é santo.”
“Eu sou pecador.”
“Ele conseguiu.”
“Eu fracassei.”
“Ele está próximo de Deus.”
“Eu estou distante.”
Mas a lógica profunda do Curso caminha em outra direção.
Se Jesus é chamado de irmão, sua realização não existe para provar nossa inferioridade.
Ela aponta para uma possibilidade.
O próprio Texto afirma, na passagem sobre essa relação, que aquilo que está realizado nele encontra-se ainda como potencial no estudante.
A distância, portanto, não representa uma diferença definitiva de essência.
Representa um aprendizado ainda não plenamente reconhecido.
Jesus e Cristo são exatamente a mesma coisa em UCEM?
Essa questão exige atenção à terminologia própria do livro.
O Manual de Professores possui inclusive uma seção específica denominada:
“Jesus/Cristo”.
Ao longo de UCEM, “Cristo” possui uma dimensão que ultrapassa simplesmente a personalidade histórica de Jesus.
Cristo está relacionado à identidade do Filho de Deus e à consciência da unidade.
Jesus, por sua vez, aparece como aquele que reconheceu plenamente essa identidade.
Por isso, quando falarmos de Consciência Crística nesta série do Online Cristo, precisamos manter uma distinção: há a linguagem específica de UCEM e há usos contemporâneos mais amplos da expressão.
Nosso estudo seguirá prioritariamente aquilo que o próprio Curso apresenta.
O que é a consciência interior de Cristo?
No primeiro capítulo, o Curso faz uma afirmação muito importante: o milagre é apresentado como expressão da consciência interior de Cristo e da aceitação da Expiação.
Isso nos leva ao centro do ensinamento.
Cristo não aparece apenas como algo para ser contemplado externamente.
Existe uma dimensão interior do reconhecimento.
Quando a percepção é corrigida; quando escolhemos perdão em lugar de condenação; quando reconhecemos um irmão em lugar de um inimigo; quando deixamos o medo e permitimos a entrada do amor; a visão começa a aproximar-se daquilo que o Curso chama de visão de Cristo.
Jesus e os milagres
Jesus também aparece intimamente relacionado ao princípio dos milagres.
No capítulo inicial, a voz afirma: “Um milagre é uma correção introduzida por mim num pensamento falso.”
Essa frase ajuda a compreender o papel de Jesus dentro do sistema.
A função não é realizar espetáculos para impressionar.
Aliás, o próprio Curso adverte que utilizar milagres como espetáculo para produzir crença constitui uma compreensão equivocada de seu propósito.
O milagre é fundamentalmente corretivo.
Algo foi percebido através do medo.
A percepção é corrigida.
Onde havia separação, começa-se a reconhecer união.
Onde havia condenação, abre-se espaço para o perdão.
Então qual é o papel do Espírito Santo?
Aqui precisamos fazer outra distinção fundamental.
Jesus possui uma função importante no sistema de UCEM. Mas o Espírito Santo é apresentado como o Guia interior da correção.
No primeiro capítulo, o Curso o chama de mecanismo dos milagres e afirma que Ele distingue o verdadeiro do falso.
Podemos visualizar assim:
- ego → interpreta através da separação
- Espírito Santo → reinterpreta através da verdade
- milagre → mudança resultante na percepção
- Jesus → modelo, professor e presença associada ao processo da Expiação
Essas funções se relacionam, mas não precisam ser confundidas.
A Voz de Deus e o Espírito Santo
Em vários momentos, UCEM utiliza expressões como:
Voz por Deus
ou linguagem equivalente para falar da orientação divina.
Isso não precisa ser entendido necessariamente como ouvir uma voz física.
Na própria obra, a orientação interior é relacionada à mudança de percepção, à paz e à correção da mente.
O Curso também afirma que o Espírito Santo não é percebido através dos olhos ou ouvidos físicos, mas pode ser reconhecido por seus efeitos.
Essa é uma chave muito importante para uma espiritualidade equilibrada.
Em vez de perguntar apenas: “Ouvi alguma coisa?” podemos perguntar: “Que frutos essa orientação está produzindo?”
Pelos frutos
Essa talvez seja uma das formas mais seguras de compreender a orientação interior dentro do próprio UCEM.
O Texto enfatiza os resultados.
Uma orientação que conduz progressivamente a:
- paz;
- perdão;
- união;
- humildade;
- amor;
- responsabilidade;
- não ataque;
- compaixão;
tende a estar alinhada ao sistema que UCEM atribui ao Espírito Santo.
Uma orientação que produz:
- superioridade;
- medo;
- condenação;
- obsessão;
- controle;
- ataque;
- separação;
merece ser questionada.
O próprio Curso utiliza o princípio de reconhecer algo pelos seus frutos.
Nem toda voz interior é orientação espiritual
Esse ponto merece especial atenção.
Ter um pensamento muito intenso não significa automaticamente que ele veio de Deus.
Sentir uma forte emoção também não.
Ter uma intuição não torna aquela interpretação infalível.
O ego também possui uma voz.
E pode ser extremamente convincente.
Pode dizer:
“Você precisa responder agora.”
“Você precisa provar que está certo.”
“Essa pessoa é sua inimiga.”
“Deus está do seu lado e contra ela.”
“Você é mais evoluído.”
Por isso o discernimento não deveria basear-se apenas na intensidade da experiência.
É preciso observar seus frutos.
A voz do ego e a Voz que conduz à paz
Podemos fazer um exercício simples.
A voz do ego pergunta:
Quem está errado?
A orientação crística pergunta:
O que precisa ser curado em minha percepção?
O ego pergunta:
Como posso vencer?
A orientação do amor pergunta:
Como posso permanecer em paz sem abandonar a verdade?
O ego diz:
Nunca perdoe.
O Espírito Santo conduz:
Liberte sua mente da prisão do ressentimento.
O ego diz:
Ataque antes que ataquem você.
O amor pergunta:
Existe uma resposta que preserve seus limites sem transformar o outro em inimigo?
Essa diferença é fundamental.
Jesus como professor, não como instrumento de medo
Para o Online Cristo, existe aqui uma mensagem especialmente bela.
Jesus pode ser contemplado não apenas como alguém diante de quem devemos sentir medo ou indignidade.
Em UCEM, sua função é profundamente pedagógica.
Ele ensina.
Corrige.
Aponta.
Acompanha.
Recorda.
E demonstra uma forma diferente de perceber.
O professor verdadeiro não quer produzir dependência.
Quer que o aluno aprenda.
UCEM não pretende criar um culto
Esse ponto precisa permanecer presente durante toda nossa série.
No próprio prefácio, encontramos a afirmação de que o Curso não pretende tornar-se fundamento de outro culto.
Seu propósito seria fornecer um caminho através do qual algumas pessoas pudessem encontrar seu Professor Interno.
Isso significa que nem Helen Schucman, nem William Thetford, nem qualquer professor posterior de UCEM deveria substituir a experiência interior do estudante.
O livro aponta.
O professor aponta.
As palavras apontam.
Mas o caminho precisa tornar-se experiência.
O Curso também não se apresenta como único caminho
Outro aspecto fundamental para compreender sua voz é que UCEM não exige exclusividade espiritual.
Seu prefácio afirma que, embora utilize princípios cristãos, aborda temas espirituais universais e se considera apenas uma forma de um currículo universal.
Isso evita transformar a mensagem em: “Somente quem estuda UCEM encontrará Deus.”
Essa não é a proposta apresentada pelo próprio prefácio.
O Curso é um caminho.
Não necessariamente o único caminho.
Jesus nos conduz para onde?
Se observarmos o conjunto do ensinamento, a direção é bastante clara.
Jesus não pretende simplesmente fazer com que o estudante saiba mais sobre Jesus.
O caminho aponta para uma transformação da mente.
Do medo: ao amor.
Da culpa: ao perdão.
Do ataque: à paz.
Da separação: à união.
Do julgamento: à visão corrigida.
Do ego: ao reconhecimento de uma identidade mais profunda.
A pergunta deixa de ser “Quem falou?” e torna-se “O que isso produz em mim?”
A questão histórica e espiritual sobre a origem da Voz continuará sendo importante.
Mas existe uma segunda pergunta que talvez seja ainda mais transformadora:
O que acontece quando aplico o ensinamento?
Estou me tornando mais amoroso?
Mais pacífico?
Mais capaz de perdoar?
Menos interessado em condenar?
Mais responsável pela minha própria percepção?
Mais capaz de enxergar humanidade naquele que considero diferente de mim?
Ou estou utilizando espiritualidade para me sentir superior?
Essa diferença é decisiva.
Porque podemos transformar até mesmo um ensinamento sobre unidade em instrumento de separação.
Uma prática de discernimento crístico
Quando estiver diante de uma decisão importante, não tente imediatamente encontrar uma resposta.
Primeiro observe sua mente.
Pergunte: Estou tentando decidir a partir do medo?
Depois: Estou tentando provar alguma coisa?
E então: Minha escolha pretende punir alguém?
Observe.
Respire.
Agora diga interiormente: Jesus, ensina-me a olhar para esta situação de outra maneira.
E: Espírito Santo, corrige minha percepção antes que eu escolha.
Permaneça alguns instantes em silêncio.
Não force uma voz.
Não tente fabricar uma resposta sobrenatural.
Observe a direção da mente.
Procure aquilo que conduz simultaneamente à verdade, à responsabilidade e à paz.
Oração — Ensina-me a Reconhecer a Voz do Amor
Jesus,
quando muitas vozes falarem dentro de mim,
ensina-me a discernir.
Quando o medo gritar,
que eu não o confunda com verdade.
Quando o ego exigir que eu ataque,
recorda-me de que existe outro caminho.
Quando minha necessidade de ter razão
for maior que minha vontade de ter paz,
ajuda-me a escolher novamente.
Espírito Santo,
corrige minha percepção.
Não permitas que eu utilize teu Nome
para justificar meus julgamentos.
Não permitas que eu chame de orientação
aquilo que nasce do medo.
Ensina-me a reconhecer pelos frutos.
Onde houver amor,
que eu reconheça o Amor.
Onde houver paz,
que eu permita a Paz.
Onde houver perdão,
que eu encontre liberdade.
Onde houver verdade,
dá-me coragem para recebê-la.
Jesus,
caminha comigo como Mestre e irmão.
Ensina-me não apenas a falar sobre Cristo,
mas a permitir que minha maneira de olhar
seja transformada.
Que eu veja menos inimigos.
Que eu construa menos prisões.
Que eu condene menos.
Que eu perdoe mais.
E que, pouco a pouco,
a Voz do medo perca sua autoridade
e a Voz do Amor seja reconhecida em meu coração.
Amém.
O verdadeiro reconhecimento
Talvez compreender quem fala em Um Curso em Milagres não seja apenas descobrir uma identidade.
Talvez seja aprender a reconhecer a direção para a qual a mensagem aponta.
Jesus aparece no Curso como professor, irmão e presença ligada à correção da percepção.
O Espírito Santo aparece como Guia interior.
E o estudante é convidado a aprender a distinguir entre dois sistemas de pensamento.
Um conduz à separação.
O outro conduz à união.
Um alimenta o medo.
O outro desfaz o medo através do amor.
E, pouco a pouco, a pergunta: “Quem está falando comigo?”
pode transformar-se em outra: “Que voz estou escolhendo seguir?”
Continue a série Um Curso em Milagres no Online Cristo
No próximo post:
UCEM É Uma Religião?
Vamos aprofundar por que Um Curso em Milagres utiliza Jesus, Cristo, Deus, Espírito Santo, salvação e Expiação, mas afirma não pretender criar um novo culto; veremos sua relação com o cristianismo, o significado de “currículo universal” e por que o próprio Curso coloca a experiência espiritual acima da disputa teológica.
