Eu vejo só o passado
365 Dias com Um Curso em Milagres
Uma Jornada de Treinamento da Mente, Perdão e Paz Interior
A IDEIA DE HOJE
Eu vejo só o passado.
Esta pequena frase introduz uma das ideias mais profundas das primeiras lições de Um Curso em Milagres.
Até agora, começamos a perceber que:
• atribuímos significados ao que vemos;
• nem sempre compreendemos aquilo que percebemos;
• nossos pensamentos não são necessariamente a verdade;
• podemos estar transtornados por interpretações que nossa mente criou.
Agora o Curso começa a revelar de onde grande parte dessas interpretações vem:
do passado.
A Lição 7 afirma que essa ideia é o fundamento racional das lições anteriores. Segundo o texto, vemos as coisas através do aprendizado acumulado e das experiências anteriores que associamos a elas.
O QUE SIGNIFICA “EU VEJO SÓ O PASSADO”?
Imagine que você olhe para uma xícara.
Parece evidente que está simplesmente vendo uma xícara. Mas o Curso nos convida a observar tudo o que está envolvido nessa percepção.
Você já sabe:
• para que uma xícara serve;
• como segurá-la;
• como é beber nela;
• que algumas quebram quando caem;
• se gosta ou não daquele formato;
• se aquela cor lhe agrada;
• talvez até quem lhe deu aquela xícara.
Ou seja: você não olha para ela como se nunca tivesse visto algo semelhante.
Você olha através de todo o aprendizado anterior relacionado àquilo.
O próprio Livro de Exercícios usa justamente o exemplo de uma xícara para mostrar que aquilo que acreditamos ver no presente está repleto de experiências passadas.
NÃO VEMOS APENAS OBJETOS
Esse princípio se torna muito mais significativo quando aplicado às pessoas.
Você olha para alguém que conhece.
Mas será que vê apenas a pessoa que está diante de você agora?
Ou também vê:
• tudo o que ela já disse;
• aquilo que fez;
• o que você esperava que fizesse;
• as vezes em que se sentiu amada;
• as vezes em que se sentiu ferida;
• promessas;
• discussões;
• decepções;
• expectativas;
• julgamentos acumulados?
Muitas vezes, basta o rosto de alguém aparecer para uma história inteira ser ativada.
Nesse instante, talvez não estejamos encontrando a pessoa apenas no presente.
Estamos encontrando também nosso passado com ela.
O PASSADO FUNCIONA COMO UMA LENTE
Podemos imaginar a percepção como se usássemos óculos invisíveis.
Esses óculos foram formados por:
• experiências;
• memórias;
• educação;
• crenças familiares;
• relacionamentos;
• medos;
• perdas;
• sucessos;
• fracassos;
• expectativas.
Então algo acontece agora.
Mas nós o enxergamos através dessas lentes.
Por isso duas pessoas podem viver situações semelhantes e interpretá-las de maneiras completamente diferentes.
EXEMPLO: UMA PESSOA DEMORA PARA RESPONDER
Uma pessoa que viveu abandono pode interpretar: “Ela está indo embora.”
Outra pode pensar: “Ela deve estar ocupada.”
Outra: “Depois ela responde.”
O acontecimento exterior é semelhante.
A diferença está naquilo que cada mente trouxe do passado para o presente.
A Lição 7 começa a nos ajudar a reconhecer exatamente isso.
O PRESENTE É RAPIDAMENTE COBERTO PELA MEMÓRIA
A experiência acontece muito rapidamente.
Algo surge diante de nós.
Quase imediatamente, a mente pergunta: “Com o que isso se parece?”
Depois busca referências anteriores.
Então classifica:
• seguro;
• perigoso;
• agradável;
• desagradável;
• conhecido;
• ameaçador;
• desejável;
• indesejável.
Tudo isso pode acontecer em segundos.
E então acreditamos estar simplesmente vendo o presente. Mas talvez estejamos vendo principalmente o presente interpretado pelo passado.
RELACIONAMENTOS MOSTRAM ISSO COM GRANDE CLAREZA
Imagine um casal depois de muitos anos de convivência.
Uma frase simples pode carregar dezenas de significados anteriores.
A pessoa diz: “Tudo bem.”
E o outro não ouve apenas duas palavras.
Pode ouvir:
• uma discussão antiga;
• um tom usado outras vezes;
• uma mágoa ainda não resolvida;
• uma expectativa frustrada.
A comunicação presente passa a carregar todo um arquivo de memória.
Assim, duas pessoas podem estar fisicamente no mesmo ambiente enquanto suas mentes estão reagindo a acontecimentos de anos atrás.
NÃO SIGNIFICA QUE A MEMÓRIA SEJA INÚTIL
Seria incorreto compreender a lição como se UCEM estivesse dizendo:
“Você não deve possuir memória.”
A memória possui funções práticas importantes.
Precisamos lembrar:
• nomes;
• compromissos;
• informações;
• caminhos;
• aprendizados;
• responsabilidades.
A questão aqui é outra.
Estamos observando como a memória condiciona nossa percepção.
Especialmente quando transformamos experiências anteriores em certezas sobre aquilo que está acontecendo agora.
UMA EXPERIÊNCIA ANTIGA PODE SE TORNAR UMA REGRA
Talvez alguém tenha sido traído em um relacionamento.
A mente pode aprender: “Não posso confiar nas pessoas.”
Depois surge uma nova relação.
A pessoa é diferente. O momento é diferente. Mas a antiga conclusão continua ativa.
Então qualquer silêncio pode parecer suspeito.
Qualquer mudança de comportamento pode ser interpretada como ameaça.
O passado começa a escrever o presente antes mesmo que o presente possa revelar-se.
O MESMO ACONTECE COM NOSSA IDENTIDADE
Não vemos apenas outras pessoas através do passado.
Também vemos a nós mesmos dessa maneira.
Talvez você tenha cometido um erro anos atrás. E ainda pense: “Sou uma pessoa que fracassa.”
Talvez tenha ouvido durante a infância: “Você é muito sensível.” E ainda enxergue a si mesma através dessa definição.
Talvez tenha sido rejeitada. E carregue: “Não sou escolhida.”
Talvez algo tenha dado errado. E tenha concluído: “Não sou capaz.”
Um acontecimento passou. Mas sua interpretação pode ter permanecido como identidade.
QUANDO O PASSADO SE TRANSFORMA EM FUTURO
Existe ainda outro movimento.
A mente pega aquilo que aconteceu antes e o projeta adiante.
Por exemplo: “Isso aconteceu antes, então acontecerá novamente.”
Então começamos a prever:
• novas rejeições;
• novos fracassos;
• novos conflitos;
• novas perdas.
Assim, o passado deixa de ser apenas memória.
Ele começa a determinar aquilo que esperamos do futuro.
O FUTURO PODE SE TORNAR UMA REPETIÇÃO DO PASSADO
Observe quantas previsões surgem a partir de experiências anteriores:
“Relacionamentos sempre acabam assim.”
“Nunca tenho sorte.”
“Toda vez que confio, sofro.”
“Quando começo algo novo, dá errado.”
“Dinheiro nunca permanece comigo.”
A mente pega acontecimentos passados e transforma-os em regras universais.
Depois procura sinais que confirmem essas regras.
Dessa forma, o passado continua organizando nossa percepção.
POR QUE ESSA LIÇÃO EXPLICA AS ANTERIORES?
O próprio texto diz que a ideia de hoje fundamenta as precedentes.
Isso começa a fazer sentido.
“Nada do que vejo significa coisa alguma.”
Porque o significado que atribuo está carregado de associações aprendidas.
“Eu tenho dado a tudo o que vejo todo o significado que tem para mim.”
E grande parte desses significados veio das experiências anteriores.
“Eu não compreendo coisa alguma do que vejo.”
Porque talvez esteja interpretando o presente através do passado.
“Esses pensamentos não significam nada.”
Porque muitos são repetições de associações antigas.
“Eu nunca estou transtornado pela razão que imagino.”
Porque posso acreditar que algo presente está me perturbando quando uma antiga interpretação está sendo ativada.
“Eu estou transtornado porque vejo algo que não existe.”
Porque posso estar vendo no presente uma história criada a partir do passado.
UMA PERGUNTA PODEROSA
Quando algo produzir uma reação intensa hoje, pergunte:
“Quanto desta reação pertence realmente a este momento?”
Talvez descubra algo surpreendente.
A situação atual pode representar apenas uma pequena parte da emoção.
O restante pode estar ligado a:
• experiências anteriores;
• expectativas;
• lembranças;
• medos aprendidos;
• histórias acumuladas.
EXEMPLO: UMA CRÍTICA
Alguém faz uma observação sobre seu trabalho.
A observação atual pode ser relativamente simples.
Mas ela ativa lembranças de:
• críticas dos pais;
• dificuldades na escola;
• antigos chefes;
• situações em que você se sentiu inadequada.
De repente, uma frase atual carrega vinte anos de história.
Então parece que você está reagindo apenas ao comentário de hoje.
Talvez não esteja.
EXEMPLO: DINHEIRO
Você olha para o saldo bancário.
O número está no presente.
Mas aquilo que sente pode carregar:
• experiências de escassez;
• conflitos familiares sobre dinheiro;
• perdas financeiras;
• histórias que ouviu na infância;
• medo de não ter o suficiente.
Você não vê apenas um número.
Pode estar vendo toda uma história.
EXEMPLO: O CORPO
Você olha para o espelho.
Talvez veja muito mais do que aquilo que realmente está diante de você.
Pode enxergar:
• comparações antigas;
• críticas recebidas;
• padrões culturais;
• fotografias anteriores;
• expectativas sobre envelhecimento;
• memórias de como era anos atrás.
O espelho mostra o presente. Mas a mente pode colocar sobre ele uma história inteira.
A PRÁTICA DO DIA
Hoje, olhe ao seu redor.
Não procure objetos especiais.
Deixe seus olhos pousarem naturalmente sobre aquilo que estiver diante de você.
Aplique a ideia:
• Eu vejo só o passado neste lápis.
• Eu vejo só o passado nesta cadeira.
• Eu vejo só o passado neste telefone.
• Eu vejo só o passado nesta mão.
• Eu vejo só o passado naquele rosto.
O próprio exercício usa exemplos semelhantes e pede que a ideia seja aplicada indiscriminadamente ao que captar o olhar.
COMO PRATICAR
Durante a prática:
• não permaneça muito tempo olhando para um único objeto;
• não tente descobrir a história completa de cada coisa;
• não analise suas memórias;
• não procure objetos emocionalmente importantes;
• não exclua deliberadamente nada;
• olhe brevemente;
• aplique a ideia;
• passe para o próximo objeto.
A orientação original é fazer três ou quatro períodos de aproximadamente um minuto ao longo do dia.
NÃO TRANSFORME A PRÁTICA EM ANÁLISE DO PASSADO
Existe uma diferença importante entre perceber a influência do passado e mergulhar nele.
A lição não pede: “Descubra todas as experiências que fizeram você pensar assim.”
Hoje basta reconhecer:
“O passado participa da maneira como estou vendo.”
Isso já é suficiente.
UMA PRÁTICA PARA RELACIONAMENTOS
Quando encontrar alguém que conhece bem, perceba silenciosamente: “Há uma história inteira que minha mente associa a essa pessoa.”
Depois pergunte:
“Consigo permitir que ela exista por alguns segundos além dessa história?”
Não precisa apagar o passado.
Apenas não deixe que ele ocupe todo o espaço.
UMA PRÁTICA DIANTE DE UM CONFLITO
Quando surgir um conflito, pergunte:
• O que realmente aconteceu agora?
• O que estou lembrando?
• Esta pessoa está diante de mim ou estou respondendo à imagem que formei dela?
• Estou reagindo apenas ao presente?
• Existe uma experiência antiga sendo ativada?
UMA PRÁTICA DIANTE DO MEDO
Quando sentir medo de alguma coisa que possa acontecer, pergunte:
“Que experiência passada minha mente está usando para prever este futuro?”
Talvez você descubra:
“Tenho medo de ser rejeitada porque isso aconteceu antes.”
Ou:
“Tenho medo de fracassar porque já fracassei em algo semelhante.”
Então reconheça:
o passado não é necessariamente uma profecia.
A DIFERENÇA ENTRE LEMBRAR E VIVER NO PASSADO
Lembrar é natural.
Viver mentalmente no passado é outra coisa.
Podemos lembrar de algo sem permitir que ele determine:
• quem somos;
• quem os outros são;
• o que acontecerá;
• aquilo que podemos viver agora.
O passado pode ensinar. Mas não precisa governar.
O PRESENTE PRECISA DE ESPAÇO
Imagine que cada momento novo chegue como uma página em branco. Mas antes mesmo de lê-la, colocamos sobre ela páginas antigas.
Então dizemos: “Já sei essa história.”
A prática de hoje começa a retirar lentamente essas páginas.
Não porque o passado precise ser destruído. Mas porque o presente precisa ser visto.
O QUE OBSERVAR HOJE
Preste atenção especialmente quando surgir:
• “Ele sempre…”
• “Ela nunca…”
• “Isso acontece toda vez…”
• “Eu sou assim…”
• “As pessoas são assim…”
• “Já sei como isso vai terminar…”
• “Sempre foi desse jeito…”
Essas frases podem indicar que o passado está sendo usado para definir o presente ou prever o futuro.
PERGUNTAS PARA OBSERVAR A MENTE
• Quanto do que penso sobre determinada pessoa vem de experiências anteriores?
• Estou permitindo que alguém mude ou continuo vendo sua versão antiga?
• Que acontecimentos passados ainda utilizo para definir quem sou?
• Que experiências antigas influenciam meus medos atuais?
• Estou tratando o passado como prova do futuro?
• Quantas vezes reajo a uma lembrança em vez do que está acontecendo agora?
• O que eu perceberia se não soubesse antecipadamente o significado desta situação?
• Consigo admitir que este momento talvez seja realmente novo?
UM EXERCÍCIO DE PRESENÇA
Escolha um objeto próximo.
Olhe para ele.
Perceba quantas informações sua mente imediatamente associa àquele objeto.
Depois respire.
Durante alguns segundos, tente simplesmente vê-lo.
Sem explicar.
Sem nomear mentalmente sua história.
Sem procurar significado.
Apenas observe.
Essa prática não substitui a lição original.
Ela apenas ajuda a experimentar a diferença entre:
ver
e
interpretar através da memória.
ESCOLHA DE HOJE
Hoje escolho reconhecer que o passado influencia minha maneira de ver.
Não preciso negá-lo.
Não preciso apagar minhas experiências.
Mas também não preciso permitir que aquilo que aconteceu determine tudo o que estou vivendo agora.
Posso olhar novamente.
Posso conhecer novamente.
Posso experimentar novamente.
O presente não precisa ser apenas uma repetição.
ORAÇÃO DE ENTREGA
Espírito Santo,
hoje entrego a Ti o passado que carrego em meus olhos.
As histórias que coloquei sobre as pessoas.
As antigas mágoas que ainda definem meus relacionamentos.
As experiências que transformei em regras.
Os fracassos que transformei em identidade.
Os medos que transformei em previsões.
Ajuda-me a perceber quando não estou vendo o que está diante de mim,
mas apenas recordando aquilo que já aconteceu.
Ensina-me a honrar minha história sem permanecer aprisionada nela.
Onde eu estiver vendo uma antiga ferida,
mostra-me o presente.
Onde eu estiver esperando que a dor se repita,
mostra-me uma nova possibilidade.
Onde eu estiver julgando alguém pelo passado,
ensina-me a olhar novamente.
Onde eu estiver julgando a mim mesma pelo que já aconteceu,
lembra-me de que este instante é novo.
Que meus olhos possam se tornar mais livres.
Que minha mente possa ficar mais aberta.
E que eu permita ao presente ser aquilo que ele realmente é.
Amém.
FRASE PARA RECORDAR DURANTE O DIA
“O passado pode explicar minhas interpretações, mas não precisa determinar o que vejo agora.”
AO FINAL DO DIA
Escolha uma situação que tenha provocado uma reação emocional.
Anote:
• O QUE ACONTECEU AGORA?
Descreva apenas o acontecimento presente.
• O QUE ISSO ME FEZ LEMBRAR?
Observe as associações.
• QUE CONCLUSÃO ANTIGA APARECEU?
Talvez:
“Vou ser abandonada.”
“Não sou suficiente.”
“Isso sempre dá errado.”
• ESSA CONCLUSÃO É O PRESENTE OU É UMA MEMÓRIA?
Observe sem julgamento.
• POSSO PERMITIR UMA NOVA POSSIBILIDADE?
Finalize dizendo: “Aquilo que aconteceu antes não precisa determinar aquilo que escolho ver agora.”
LIÇÃO 7 — ESSÊNCIA
• O passado participa muito mais da nossa percepção do que normalmente reconhecemos.
• Não vemos apenas objetos e pessoas; vemos associações, lembranças e aprendizados relacionados a eles.
• Uma experiência passada pode transformar-se em uma regra sobre o presente.
• Uma regra sobre o presente pode transformar-se em uma previsão sobre o futuro.
• Reconhecer esse mecanismo não exige apagar a memória.
• Significa abrir espaço para que o presente seja realmente visto.
Hoje começo a perceber que grande parte daquilo que considero “ver” é, na realidade, lembrar.
E quando reconheço o passado nos meus olhos,
começo a criar espaço
para finalmente encontrar
o presente.
